Pipa.com.br
Reserve
agora
Destino:
Chegada:
Saída:
0 noites
Nº pessoas:
Arte
Pessoas daqui com talento e muita expressão
home > > Arte
Faça sua pesquisa
  Clique para enviar a consulta
  4 / 13
Comecei a veranear na Pipa ainda na barriga de minha mãe, assim como todos os meus irmãos. Meus filhos trilharam o mesmo caminho, e também meu neto. É uma relação muito íntima que temos com aquele pedaço de chão. A família Barbalho/Simonetti iniciou os veraneios na Pipa no ano de 1926, três anos depois do nascimento de minha mãe, hoje com 86 anos de idade.
Como o veraneio acontecia somente no mês de janeiro, passávamos o ano inteiro esperando este acontecimento. Contávamos os dias, as semanas os meses... E quando chegavam as férias do final do ano, a ansiedade era tanta que por muitas vezes, perdia o sono e só adormecia quando era vencido pelo cansaço. Eu não via a hora de subir no caminhão para fazer aquela tão desejada viagem. Na década de 60, já era possível contar com a modernidade e o conforto dos caminhões. Nossos pais viajavam na boleia enquanto que os filhos e empregados acomodavam-se em cima da bagagem que dentre toda a tralha que era levada, não faltava cadeiras e colchões feitos com palha ou junco, para acomodar a todos. As famílias que moravam em Natal, saíam muito cedo e enfrentavam pelo menos 60 quilômetros de estrada de chão, pouco conservada, até a cidade de Goianinha. Eram horas e horas sacudindo na carroceria do velho Dodge até avistar a Usina Estivas. De cima da ladeira podia-se ver ao longe a bela cidade e compreender a exclamação encantada e justa do Dr. Alfredo de Araújo Cunha (1861-1929) que olhando o casario branco da cidadezinha clara disse: – Goianinha! Pátria de Anjos!

Depois de descer a ladeira com dificuldade, alcançávamos o vale e a partir dali mais três quilômetros depois, entrávamos triunfantes na cidade. Estava vencida a primeira etapa da estafante viajem.

Uma parada "estratégica" na casa de meu avô Odilon Barbalho e o almoço estava garantido. Daí por diante começava o trecho mais complicado e sofrido da viagem. Era comum os velhos caminhões, após certa jornada, pararem por aquecimento no motor, mas nada que não fosse resolvido com uma boa lata d’água no radiador e logo já estavam de volta à estrada. Continuava a viagem com se nada tivesse acontecido. Não havia possibilidade de fazer toda aquela viagem sem dar um "prego". Se não acontecia no trecho vencido entre Natal e Goianinha, podia contar que até a Pipa, não havia reza forte que fizesse chegar ao destino sem o famoso "prego".

Não se esperava nem o sol esfriar, pois esse trecho era mais deserto e se por acaso houvesse algum imprevisto no caminho, tinha tempo para realizar o conserto e chegar ao destino antes do anoitecer. Até o distrito de Piau a viagem seguia sem maiores problemas. Depois que entravamos nos "taboleiros" a estrada se tornava ainda mais precária. Geralmente essa estrada era utilizada somente por animais de carga e pessoas que faziam a pé o caminho entre Piau e Pipa. Por ser rara a passagem de carros, não havia nenhuma manutenção. Em determinados trechos a vegetação lateral era praticamente aberta pelo para choque do caminhão e acima de nossas cabeças as árvores se fechava totalmente formando um túnel de galhos e folhas. De tão próximos, era possível apanhar de cima da carroceria do caminhão, cajus, mangabas e outras frutinhas mussambê.

Havia dois pontos que eram temidos pelos motoristas por causa de sua difícil transposição: A ladeira do Rio Galhardo e a ladeira do Sanharão. Na primeira, além da dificuldade de vencer a subida de areias frouxas, ainda tinha o problema do rio que, embora raso, impedia que o caminhão tomasse alguma velocidade. Nesses dois pontos desciam todos, e a ladeira era vencida a pé. Ficava somente o motorista na direção e o "calunga", alcunha do ajudante, que de cepo na mão e em constante sintonia com o motorista faziam, metro a metro, o veículo vencer ladeira a cima, as terríveis areias daquele trecho. O cepo era uma peça de madeira com uns 50 cm de comprimento por uns 20 cm de altura que se colocava atrás das rodas traseiras do caminhão, impedindo que ele descesse após alguns metros de subida. "Nunca esqueci os gritos ofegantes do motorista: ". . .bota o cepo", e. . . pouco depois, "Tira o cepo. . ." Sempre que o caminhão vencia um pouco da areia, era colocado o tal cepo para que ele não retornasse. Depois de algum descanso, lá se vai mais uma tentativa. Vencido alguns metros de areia, novamente o cepo era colocado, e assim até que chegasse ao topo. Na ladeira do Sanharão, acontecia a mesma coisa, porém com mais dificuldade, pois além do percurso ser maior, havia uma curva na metade da ladeira que dificultava à subida. E depois de praticamente um dia inteiro de viagem, chegávamos ao nosso destino.

Até o final da década de 70 não existia energia elétrica na Pipa. A iluminação das casas era feitas com as lâmpadas a querosene. As marcas Coleman e Aladim era as mais conhecidas. O querosene utilizado era o nosso velho "Esso Jacaré". Essas lâmpadas era o que existia de mais moderno. Durante as refeições noturnas ficavam nas salas de jantar e posteriormente eram transferidas para os alpendres, onde as famílias se reunião pra conversar amenidades ou mesmo jogar um carteado à base de sete e meio, buraco, pif-paf ou relancim. Os candeeiros, lamparinas e lampiões eram usados na iluminação dos quartos, cozinhas e banheiros. Os mais afortunados possuíam geladeira também a querosene e tempos depois apareceram as mais modernas que funcionavam com botijões de gás.

Depois de um ano inteiro sem uso, as lâmpadas geralmente apresentavam algum problema de funcionamento e nessa ocasião, entrava em cena tio Venício, irmão de minha mãe, especialista no conserto dessas lâmpadas. De óculos na ponta do nariz e sempre mastigando a língua no lado da boca, não havia defeito que ele não arrumasse. Depois de alguns minutos de trabalho e da colocação de uma "camisa" nova, era só dar algumas bombadas de ar e lá estavam a disposição 500 velas de boa iluminação.

Essas lâmpadas também eram utilizadas para iluminar os banhos noturnos. Quando isso acontecia, era preparada uma quantidade de "caipirinha" feita com a boa cachaça trazida dos engenhos de Goianinha, limão, açúcar e gelo. Este, conseguido as duras penas nas velhas geladeiras, sempre ficava a desejar. Era tudo levado para a beira da praia, juntamente com os "tira gosto", naquele tempo também chamados de "parede", previamente preparados pelas mulheres.

As lâmpadas eram colocadas suspensas em um "garajal" – tripé feito de madeira que os nativos subiam para martelar as estacas dos currais-de-peixe – e lá pra diante quando a "marvada" começava a fazer efeito, os adultos ficavam mais relaxados. Era a ocasião que nós adolescentes, esperávamos. Aproveitando algum descuido dos nossos pais, também tomávamos um pouco daquela bebida maravilhosa que nos deixava alegres e risonhos.

Pela manhã os jovens se reuniam em algum daqueles alpendres pra jogar conversa fora. Nós todos éramos parentes e alguns, por morar em outros estados, só se encontravam durante o mês de janeiro, no veraneio na Pipa. Essa ocasião era esperada por todos com muita ansiedade. Como não ter saudade dessas coisas simples? De um tempo feliz de nossas vidas, que sabemos, nunca mais irá voltar.

Essa crônica faz parte do livro "A PRAIA DA PIPA DOS MEUS AVÓS, a sua verdadeira história". De autoria de Ormuz Barbalho Simonetti.


Clique abaixo e conheça outras crônicas de Ormuz Simonetti: